sexta-feira, 4 de março de 2011

Nova versão do "E agora, José?": E agora, qual é?

"E agora, qual é?" carrega uma generosa alusão ao esplendoroso poema "José", de Carlos Drummond de Andrade:

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?"
(...)

Respeitando a sincronia harmônica e as mesmas rimas usadas por Drummond, "E agora, qual é?" mantém, assim, um diálogo, também no sentido protestante, com "José". Só que o novo texto poético atribui ao personagem-eixo vários questionamentos por causa dos seus cinquenta anos.

E agora, qual é?

E agora, qual é?
“Quarenta” acabou,
os “trinta” apagou,
não sei se alguém viu...
...a vida passou,
e agora, qual é?
e agora, o quê?
você fez um nome
e ajudou os outros.
Agora está em versos...
vamos lá, protesta!
Cinquenta...qual é?

Escolhas quaisquer
te mantém em curso
dentro de um caminho
que não pode ceder,
e não pode parar,
fugir já não pode,
pois você marcou
o chão do recheio
de quem com anseio
entrou para o meio
da sabedoria.
E nada expirou,
e nada sumiu,
e nada mofou,
e agora, qual é?
E agora, qual é?
Já comeu palavra,
já ficou com febre,
já mentiu jejum...
já foi bem sapeca.
Seu jubileu de ouro,
reflete no vidro
uma conseqüência
eterna – e agora?

Com a vela na mão
quer pegar a torta,
não existe torta;
quer saber nadar,
mas a água acabou;
quer deixar ruínas,
porém não dá mais.
Acorda! E agora?

Se você parasse,
se você perdesse,
se você limitasse
nesse “pare e pense”,
se você caísse,
se você hesitasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você não tem furo, né!

Junto no futuro
Sem mundo abstrato,
Sem mitologia.
E se a carne é crua
Você sabe assar,
Se tudo está preto
Consegue xarope,
Você anda a pé
E voa – não se esconde.

Rafael Clodomiro

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